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Bom Filho

Bom Filho

11 de Maio, 2021

À minha mãe

Eu não sou uma pessoa eloquente. Faltam-me a verve e o sentimento. A minha mãe, não; à minha mãe, não faltavam as palavras, fruto talvez de anos a apurar, como pedagoga.

Mas, sem esse engenho e essa arte que ela tinha, decerto muito hoje me faltará dizer. Talvez seja exactamente isso a morte: uma série de palavras que ficaram por dizer, além de uma série de coisas que ficaram por fazer, uma série de brincadeiras com a neta que ficaram por acontecer, uma roupinha, também para a neta, que ficou a meio de tricotar…

A minha mãe era muito mais do que minha mãe; e maior prova disso não poderia haver, do que a grande diversidade de pessoas que vieram despedir-se dela. E a todas tratou por igual, desde o mais rico e poderoso ao mais pobre e humilde: com respeito e amizade.

A amizade era, aliás, uma dádiva que a minha mãe distribuía profusa e generosamente: ela não conseguia ir a um sítio, sem de lá vir com um amigo!

Mas a minha mãe, dizia eu, era muito mais do que minha mãe.

Era também filha; e cedo começou a ajudar os pais, em casa, e nunca mais parou.

Era a irmã mais velha; e sempre estendeu as asas protectoras sobre os irmãos mais novos e, mais tarde, sobre as famílias que estes construíram — porque era também tia e madrinha.

Não era modista, mas sentia uma certa satisfação em ter sido aprendiza e poder usar o conhecimento adquirido dessa forma para resolver problemas indumentários, ou mesmo para fazer os cortinados todos lá de casa — e não só!

Mas era contabilista, economista e mestre em economia e tinha nisso muito orgulho, sem deixar, contudo, de ser uma pessoa discreta. Falava com saudade do seu primeiro emprego como contabilista diplomada, mesmo aqui do outro lado da rua, na Conselho, mas recordava também com um sentido de dever cumprido as restantes empresas por onde passou, quer como contabilista, quer como economista.

Assim como recordava os tempos de estudante, os trabalhos de grupo, as tardes passadas no Guanabara, o facto de ter sido bolseira da Gulbenkian — isto não sem uma ponta de vaidade… Aliás, a minha mãe nunca deixou verdadeiramente de ser estudante, porque, para além de participar entusiasticamente nas actividades das associações de antigos alunos a que pertencia, nunca deixou de ler e aprender.

A minha mãe era uma académica. A sua obra científica publicada é citada, não só em Portugal, mas também por toda a comunidade académica lusófona.

Mas foi como professora que encontrou a sua verdadeira vocação. Ao longo da sua carreira, em que chegou até ao topo, marcou indelével e positivamente gerações de contabilistas deste país e não só, pois teve alunos dos PALOP e muitos Erasmus. Acima de tudo, soube ensinar a ciência contabilística como parte duma vida integral e íntegra. Era mentora, mas sobretudo amiga, dos seus estudantes. O seu legado prossegue junto dos que com ela aprenderam, tanto quanto dos que com ela ensinaram. Mesmo depois de se retirar do ensino, não saiu de cena: o seu manual permanece estudo obrigatório para quem queira uma referência bibliográfica na área, em Português.

E o seu legado permanece, acima de tudo, comigo, seu único filho. Diziam-me, há pouco tempo, que eu sou bem filho dos meus pais — e é verdade: tudo o que sou, devo-o, em parte enorme e insofismável, à minha sempre presente mãe. A memória mais antiga que dela tenho é de, muito antes de completar cinco anos, me ensinar a pronunciar correctamente as consoantes, na cozinha da casa antiga.

Lembro-me, ainda muito pequenino, de me ensinar que a Terra é redonda e gira à volta do Sol e que isso é que faz os dias e as noites — isto no Castelo do Queijo, em frente ao mar.

Lembro-me de chegar à escola primária e a Irmã Beatriz, minha professora ao longo dos quatro anos seguintes, ficar surpreendida (e um pouco contrariada, digamos em abono da verdade), porque eu já conhecia as letras.

Lembro-me de sempre ter a minha mãe à espera, ao fim do dia, para me levar do Colégio para casa, durante anos, apesar de serem só dez minutos a pé; e lembro-me das tardes que passámos a fazer juntos os trabalhos de casa. Lembro-me até dela me explicar, quando a solução que encontrávamos não batia certo com o método que a professora tinha ensinado nesse dia, que, muitas vezes, havia mais do que uma forma de resolver o mesmo problema — saber que ainda hoje me ajuda, quando falho a primeira tentativa.

Lembro-me da minha mãe me levar à natação, mesmo aqui nas traseiras da igreja, e de até se ter inscrito também. Lembro-me da minha mãe me levar às aulas de piano, no Campo Alegre, e de se ter inscrito também. Lembro-me da minha mãe me inscrever no judo, no Colégio, mas aí não se inscreveu também…

Foi a minha mãe que me trouxe à catequese, nesta mesma igreja e paróquia.

Foi também a minha mãe que me passou o gosto pelas línguas. Primeiro, no British Council, depois no Institut Français de Porto; quando chegou a hora de ir para o Goethe Institut, já fui eu que me fui inscrever sozinho, porque a semente já estava germinada.

Aliás, a minha mãe inculcou-me muito do que são os meus gostos e hábitos, para além do estudo, das línguas, do piano, da natação e do judo. Ensinou-me a importância de poupar o dinheiro; de usar as coisas até elas se gastarem e não só até deixarem de ser novas ou bonitas (o que, curiosamente, depois levou ao paradoxo de me dizer que eu tinha de comprar roupa nova, porque andava sempre com a mesma, já usada — mas a camisola que trago hoje é nova, Mamã!); ensinou-me a vantagem de evitar sujar, em vez de limpar depois; bem como a vantagem de não desarrumar, em vez de arrumar depois; a importância de dar novos usos às coisas que já não servem (coisa que me tem dado imenso jeito na preparação de palestras e outras comunicações públicas); e ensinou-me muitas outras coisas que não cabem aqui.

Sou médico, porque, quando disse à minha mãe que, quando fosse grande, queria ser cientista, ela me convenceu de que a melhor forma de atingir esse objectivo seria cursando Medicina. Sei da satisfação que ela sentia em dizer às pessoas que tinha um filho, primeiro estudante de Medicina, e depois médico.

A vida levou-me para fora do Porto: uma curta estadia em Berlim, primeiro; depois Copenhaga, já mais de meio ano; quase três anos em Utreque, nos Países Baixos; um ano em Aveiro; mais dum ano em Lisboa; e quase mais dois anos em Chaves. Finalmente, o menino afastava-se de sua mãe; e não foi pêra doce! A verdade é que, regra geral, não passava mais dum mês sem que apanhasse um avião para Portugal; e, de Aveiro e Lisboa ao Porto havia comboio todas as semanas.

Aliás, isto lembra-me um episódio, passado há muitos anos. Tinha decidido passar uma semana de férias com os tios e as primas, mas, ao fim do segundo dia, foi preciso trazer o menino para junto de sua mãe, porque ele já não aguentava de saudades…

Após pouco mais de dezoito anos fora de casa, estava finalmente de regresso ao Porto, com uma neta que a minha mãe amou desde que a viu pela primeira vez. A pandemia está a acabar e tudo voltaria a ser como dantes, não fora este funesto acontecimento.

Mas a minha mãe está viva, enquanto aqueles cujas vidas ela tocou, nas várias facetas de irmã, tia, madrinha, amiga, colega de estudo e de trabalho, aluna, professora e mãe, a guardarem na memória e honrarem o seu exemplo e os seus ensinamentos.

Obrigado

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10 de Maio, 2021

Maria Hélder

Texto por Daniela Coelho

Maria Hélder

O nome forte e fora do comum já antevia uma vida singular.

A tia cresceu numa época em que não era usual as mulheres estudarem e serem independentes. Mas nunca quis saber do politicamente correcto, nem de aparências, dizendo sempre, com uma frontalidade ímpar, o que lhe preenchia o pensamento.

Despida de futilidades, que não lhe alimentavam a alma, reinou, invariavelmente pela sua própria cabeça.

Irmã mais velha, menina mulher, foi para onde quis, ser o que bem lhe apeteceu.

De ideias firmes, a sua clareza, inteligência e memória não passavam despercebidas em qualquer conversa. E que animadas longas conversas…

Viveu à frente do seu tempo e sempre teve a pressa de chegar a uma nova era. Adaptou-se às mudanças e conseguia ver os ciclos dessas mudanças como ninguém.

Lutou quanto pode para continuar connosco a aprender e ensinar o que ia descobrindo e cada refeição tomada com ela era servida com a certeza de que de lá vínhamos mais despertos e a fervilhar de informação que ela ia debitando, com uma volúpia difícil de igualar.

Deixou um filho, publicou dois livros e sabemos que plantou várias árvores. Mas o legado de Maria Hélder é inumerável e concretiza-se sempre que soubermos ter a humildade de aprender, a força de querer saber e o à vontade de fazer diferente.

Até sempre querida Tia

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04 de Maio, 2021

Vale a pena desconfinar, se vem aí mais uma onda de casos?

48.º episódio de «Perspectivas em saúde», na Sinal TV [visitar]

Veja este artigo em vídeo:

Ou leia o texto:

Olá!

Errar é humano. Toda a gente erra; e as autoridades de saúde e o Governo não são excepção. Houve erros, no primeiro desconfinamento, tal como houve erros em variados outros domínios do combate à pandemia de Covid-19 em Portugal e no resto do mundo.

Nem sequer devia estar a usar o pretérito perfeito, porque continua a haver erros no presente e, certamente, haverá erros no futuro.

Mas, se errar é um dos defeitos humanos, um dos méritos da humanidade e dos seres humanos, individualmente, é aprender com os erros.

Do primeiro desconfinamento para este, aprendeu-se com os erros que foram cometidos e tentou-se não voltar a cometê-los.

Duas das diferenças, para melhor, são o cariz mais localizado deste desconfinamento e a definição, a priori, de critérios de recuo.

A primeira diferença tem que ver com a aceitação de que o País não é um todo homogéneo, do ponto de vista demográfico, social, cultural e económico, e que isso tem impacto na forma como a transmissão da Covid-19 se dá em diferentes regiões, que dinâmicas de risco se estabelecem (por exemplo, num sítio podem ser os transportes públicos sobrelotados, noutro podem ser as escolas que não tenham condições para garantir o distanciamento dos alunos e noutro ainda podem ser as viagens de férias de turistas estrangeiros ou de emigrantes de visita à família) e, por conseguinte, nem todos os concelhos têm o mesmo risco ao mesmo tempo. Isso leva a uma gestão muito mais fina, em que, ao contrário do que aconteceu no primeiro desconfinamento, em que o país andou, com excepção de Lisboa, todo ao mesmo ritmo, agora, um concelho pode estar a desconfinar, enquanto outro pode estar a confinar ao mesmo tempo. A principal vantagem disto é que a economia nacional não é sacrificada como um todo, para resolver problemas regionais ou locais.

A segunda diferença tem que ver com sabermos à partida o que nos espera e podermos gerir a nossa vida em função disso. Se o Rt estiver acima de 1, ou se a incidência estiver acima de 120 casos por 100.000 habitantes, ou ambas as coisas ao mesmo tempo, já sabemos o que vem aí: ou paramos de desconfinar, ou até podemos dar um passo atrás no desconfinamento. Podemos debater se estes são ou não os melhores critérios, mas mesmo um mau critério seria sempre melhor do que nenhum critério — porque a ausência de critério gera incerteza e insegurança.

Estas duas diferenças são fundamentais, porque o confinamento é uma agressão à comunidade. O confinamento tem impacto na saúde física e mental [ver mais], gera desemprego, estraga o futuro das crianças em idade escolar [ver mais] e um ror de etc. Portanto, não é de ânimo leve que confinamos; só o fazemos quando não há mais remédio e na mais restrita área geográfica onde seja estritamente necessário. Às vezes, basta confinar um concelho. Possivelmente, nalgumas situações, em zonas de baixa densidade populacional, bastaria até confinar uma única freguesia.

Uma nova onda de casos, semelhante ao que aconteceu após o Natal, não é impossível. Mas temos de tentar evitá-la, sem, ao mesmo tempo, destruir tudo o resto que nos é caro. Este desconfinamento a conta-gotas e sempre em risco de recuar é a melhor forma que encontrámos, até ao momento, de conciliar a necessidade de proteger a saúde das pessoas com a necessidade de lhes garantir o sustento, a educação e um mínimo de diversão — porque não basta ser saudável, também é importante ser feliz.

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