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Bom Filho

Bom Filho

28 de Setembro, 2021

O método científico, o efeito placebo e os ensaios clínicos

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Ou leia o texto:

Olá!

Retomando o tema da semana passada, creio que vale a pena entrar um pouco mais em detalhe, relativamente à forma como o conhecimento biomédico é produzido, no campo dos tratamentos médicos. Para isso, é inevitável falar de ensaios clínicos.

Tal como expliquei, quando falei do método científico [ver mais], referi que ele se desenrola ao longo de seis fases, uma das quais é a da realização duma experiência, que permita confirmar ou negar a hipótese que formulámos. Concretizando isto num exemplo, para facilitar, suponhamos um medicamento novo. A primeira fase do método científico, será observar que a molécula que compõe esse medicamento tem um determinado efeito em ratos de laboratório. A segunda fase será perguntar se o mesmo efeito se observará nas pessoas e se isso terá alguma utilidade. Então, formulamos a nossa hipótese: este medicamento tem determinado efeito nos seres humanos, semelhante ao que observámos nos ratinhos do laboratório. Ora, se tem esse efeito, então permitirá aliviar os sintomas de determinada doença. A fase experimental entra aqui e destina-se a verificar se isso é verdade. Para tal, pegamos num certo número de pessoas com a doença cujos sintomas achamos que o medicamento que estamos a testar permite aliviar e dividimo-las em dois grupos: a um, damos o medicamento; ao outro nada; e logo vemos o que acontece. Se as pessoas que tomaram o medicamento se sentirem melhor do que as que não o tomaram, então a nossa hipótese confirma-se e nós acabámos de descobrir um medicamento para tratar aquela doença, que podemos comercializar.

Só que, por vários motivos, isto não é assim tão simples; e um dos motivos por que isto não é assim tão simples é o efeito placebo: algumas das pessoas que tomaram o nosso medicamento não melhoraram por acção do medicamento propriamente dito, mas antes devido à ideia de que estavam a tomar qualquer coisa com esse efeito. De facto, a nossa mente é capaz de «simular» o efeito esperado dum medicamento, de modo que nós melhoramos mesmo, mas não devido a qualquer efeito prático dum medicamento.

Para contrariar o efeito placebo, então, o que fazemos não é dividir os participantes na nossa experiência em dois grupos, um dos quais toma o medicamento e o outro nada: ao grupo que não toma nada, chamado grupo controlo, na verdade dá-se qualquer coisa a tomar: um medicamento exactamente igual ao que damos ao outro grupo em termos de cor, cheiro, forma, etc., mas sem a molécula que estamos a testar. Então, nenhum dos grupos sabe se está a ser tratado ou não, pelo que ambos sofrem o mesmo grau de efeito placebo. Para o nosso medicamento se mostrar útil, ele tem de demonstrar que as pessoas que o tomaram melhoraram mais, ou mais depressa, ou em maior número, do que as pessoas que tomaram o placebo, ou seja, ele tem de superar o efeito placebo.

Uma das objecções que recebo mais frequentemente, quando falo das medicinas ditas alternativas, é precisamente esta:

— Ah! Mas comigo funcionou!

Ou variantes:

— Ah! Mas com um amigo meu — ou com um familiar meu — funcionou!

É provável que sim. Mas é também provável que apenas tenha funcionado, porque a sua mente queria que funcionasse, devido ao efeito placebo. E é por isso que um tratamento, seja «alternativo» ou «convencional», para ser cientificamente aceite, tem de demonstrar, não que funciona, mas que funciona melhor do que um mero placebo. Porque, caso contrário, sempre sai mais barato tomar um comprimido de açúcar do que ir ao bruxo…

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21 de Setembro, 2021

O método científico

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Olá!

Parece que está na moda ser do contra. Uns são contra a astronomia e dizem que a terra é plana [ver mais], outros são contra a meteorologia e dizem que não há alterações climáticas [ver mais], outros são contra a medicina e dizem que as vacinas matam [ver mais] — incluindo as vacinas contra a Covid-19. Aliás, até há gente que diz que a Covid-19 não existe [ver mais]!

A estupidez humana não tem limites, mas este problema do negacionismo não é novo. A ciência e o racionalismo têm sido questionados, desde que existem. Sócrates, o filósofo grego, foi morto, por causa das ideias que pretendeu introduzir [ver mais]. O astrónomo Galileu não foi morto, mas só porque renegou a sua própria ciência e, ainda assim, ficou em prisão domiciliária perpétua [ver mais]. O biólogo Darwin foi alvo de intensa polémica, mas a sua teoria da evolução prevaleceu [ver mais]. E mesmo o inventor da primeira vacina já enfrentou oposição, na altura, incluindo da própria comunidade médica. Portanto, como eu dizia, nada de novo. Aliás, até podemos afirmar que temos vindo a melhorar: já não matamos os especialistas e diria que, apesar de tudo, os negacionistas são uma minoria — talvez mais barulhenta hoje do que há vinte anos, mas não deixam de ser uma minoria.

Uma das razões que podem levar uma pessoa a questionar a ciência e, portanto, ao aparecimento destes grupos negacionistas, na minha opinião, é o desconhecimento do processo que leva os cientistas a tirarem as suas conclusões e a fazerem as afirmações que fazem. Sem explicar o processo pelo qual chegamos a uma determinada «verdade científica», essa «verdade científica», caindo aparentemente do céu, pode parecer tão esotérica como os escritos bíblicos, ou de qualquer página na internet. Mas não é assim; e é por isso que, hoje, vamos falar do método científico.

Quando andei na escola, aprendi o método científico. Aprendi o que é, para que serve e como funciona. Hoje, só para confirmar, voltei à página na Internet da Direcção-Geral da Educação [visitar], onde vasculhei os programas e as metas curriculares, tanto do ensino básico como do secundário [visitar], sem conseguir encontrar qualquer referência ao ensino do método científico. Tirando a possibilidade de eu ser muito distraído, ou doutra forma incapaz de encontrar a informação que procuro, mesmo quando ela se me planta em frente aos olhos (e que — atenção! — é uma possibilidade bem real), tirando essa possibilidade, sou levado a concluir que o método científico deixou de fazer parte do programa. Assim sendo, a consequência é ser o conhecimento científico transmitido aos nossos alunos sem que lhes seja explicado como o mesmo foi obtido, o que em nada o diferencia de qualquer outro dogma — algo em que eles devem acreditar, sem questionar. A função da escola não pode ser transmitir dogmas!

Ora então, por que falo eu do ensino e do método científico num espaço sobre saúde? Porque a medicina e as ciências da saúde são baseadas no conhecimento científico, obtido através do método científico; e porque eu acredito que os doentes e os cidadãos têm o direito — e o dever — de conhecer o fundamento daquilo que lhes é transmitido e a forma como esse conhecimento foi obtido, de forma a poderem avaliar se o mesmo faz sentido, ou se não passa duma crença sem sentido. Trata-se de ser crítico, de questionar e de aceitar apenas o conhecimento que assenta em bases sólidas; porque há muitos vendedores da banha da cobra, por aí. Ora, como a escola, aparentemente, não cumpre o seu papel nessa matéria, lá terei de ser eu a explicar abreviadamente o método científico.

O método científico nasceu da necessidade de explicar o meio em que vivemos — os astros, a natureza, o ser humano —, mas, acima de tudo, nasceu da necessidade de decidir quais são as boas explicações e quais as explicações que não fazem sentido. A sua descrição formal, de quais os passos que devem ser seguidos na busca do conhecimento, deve-se ao filósofo inglês Francis Bacon [ver mais], no século XV.

Então, o método científico desenrola-se ao longo de seis fases. Tudo começa com uma observação, a qual suscita uma interrogação. Vemos que «isto é assim» — primeira fase — e perguntamo-nos «por que é assim» — segunda fase. A terceira fase é a formulação duma hipótese, com a qual procuramos responder à pergunta que formulámos, explicar «por que é assim». Essa hipótese traz consequências: se isto é assim por causa daquilo, então, se eu modificar aquilo, isto, a sua consequência, também deve mudar em conformidade. Esta é a quarta fase. Então, a quinta fase consiste na realização duma experiência, que permita confirmar essa hipótese, modificando a causa hipotética do facto observado e verificando como reage o que julgamos ser a consequência. Se tudo correr bem, chegamos à conclusão de que a nossa hipótese estava correcta, daí derivamos uma lei geral e estão concluídas as seis fases do método científico. Se o resultado da experiência não for aquele que esperávamos, reformulamos a hipótese, incorporando os novos dados, e desenhamos uma nova experiência. Mas essa é também a beleza da ciência: mesmo quando a experiência não corre como queríamos, sempre aprendemos algo. Aliás, há muitas descobertas científicas de relevo que acontecem por puro acaso, ou quando tudo corre mal!

Mas isso são contas doutro rosário. Para a semana, aprofundaremos um pouco como o método científico é aplicado à saúde​.

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