Infelizmente, vivemos numa era de preto e branco, onde é muito difícil pintar nuances de cinzento. Isso impede qualquer tipo de debate sério, seja sobre que tema for, ou porque fica mal falar de política (porque os políticos são todos iguais); ou porque não se pode ser a favor duma coisa sem se ser contra outra; ou porque se passa semanalmente — diariamente, até — duma indignação a outra, sem reflectir com conhecimento de causa e de forma aprofundada sobre qualquer uma delas; ou mesmo porque é fácil criticar, mas propor soluções é bem mais difícil. Acresce ainda a nossa dificuldade, enquanto povos, enquanto cidadãos, enquanto eleitores e enquanto políticos, em ouvir quem sabe e o preferirmos ficar na nossa bolha de verdades absolutas.
Mas vou tentar (não porque saiba muito, mas porque já li muito, escrito por quem sabe [ver este e este, por exemplo]), porque é um tema sobre o qual tenho curiosidade, e aprendi algumas coisas.
Em primeiro lugar, o que distingue um metrobus dum metro e dum bus, vulgo autocarro. Na realidade, pouco mais do que a capacidade; a maioria das diferenças são psicologia, emoção e cosmética.
Psicologia, porque olhamos para o autocarro como aquele veículo que vai singrando afanosamente (atrasado, como de costume) pelo meio do trânsito, sem imaginar que ele pode circular num canal dedicado, com prioridade nos cruzamentos; por passagem desnivelada, onde isso faça sentido; e passar de cinco em cinco minutos, exactamente como faz o metro. Quando imaginamos isso, ficamos tão surpreendidos, que temos de lhe dar um nome diferente: metrobus. Um metrobus não é mais do que um autocarro ao qual foram dados os mesmos privilégios que ao metro. Já um metro com a mesma falta de privilégios que os autocarros chama-se — eléctrico! Basta relembrar os eléctricos presos atrás de carros mal estacionados, nos anos oitenta e noventa (e suponho que ainda no presente, em Lisboa), antes de serem substituídos por autocarros, com o argumento de que estes eram mais flexíveis, para saber do que estou a falar.
Emoção, porque um veículo sobre carris apela mais ao gosto humano do que um veículo sobre alcatrão. Mas, fora esse aspecto emocional, carris ou alcatrão não fazem qualquer diferença e, se os autocarros não estiverem constantemente a travar, por causa do trânsito à frente, ou a passar por cima de buracos ou em vielas apertadas (privilégios de metrobus), a viagem pode ser tão confortável como no metro.
Cosmética, porque o metro em si, as estações (sobretudo as subterrâneas) dão um ar mais moderno do que as deprimentes paragens de autocarro, mas nada — a não ser o preço da sua construção— impede que estas sejam mais como aquelas. E os autocarros modernos assemelham-se bastante, esteticamente, ao metro.
Em segundo lugar, se o metrobus é um autocarro com privilégios de metro, então qual a real diferença? Fundamentalmente, a capacidade e, além desta, o custo da infraestrutura. Um autocarro tem um limite no comprimento que pode atingir, devido à forma como faz as curvas. O metro, por se conformar ao arco dos carris nas curvas, não tem, efectivamente, um limite no comprimento que pode assumir, desde que a potência da locomotiva e o comprimento da plataforma da estação o acompanhem. Ou seja, há situações em que, considerando a procura que se estima, não se justifica o investimento num meio de transporte mais caro, quando um autocarro (metrobus) pode produzir o mesmo nível de serviço, designadamente em termos de capacidade, que o metro.
Feitas que estão estas ressalvas, a pergunta que se coloca é se se justifica um metrobus na Boavista. Sim, exactamente pelas questões que já elenquei: atribuir aos autocarros os mesmos privilégios que ao metro, protegendo-os do trânsito regular da Avenida. A outra pergunta que também deve ser considerada é se umas latas de tinta para pintar linhas contínuas e a palavra «BUS» no chão não sairiam mais baratas e produziriam o mesmo efeito. Em termos de rapidez e fiabilidade, sim; em termos de emoção e cosmética, não; e, às vezes, a emoção e a cosmética são essenciais para garantir o sucesso dum serviço ou vaticinar o seu falhanço. Portanto, resumindo, vamos pagar mais caro do que o necessário, para que as pessoas queiram usar um serviço que, se fosse igual em termos de tempos de viagem, mas com acabamentos mais baratos, não lhes mereceria tanto apreço. É a natureza humana em funcionamento!
Os opositores da segunda fase do metrobus da Boavista alegam duas coisas que é preciso preservar: as árvores e a ciclovia. Comecemos pelas árvores, porque é rápido desmontar o argumento: no início da primeira fase (Boavista–Império), havia 280 árvores e, no final, 397, ou seja, apesar de terem sido abatidas 73, foram plantadas mais do que a quantidade que foi abatida [ver fonte]; e, para a segunda fase, cujas obras agora se iniciaram, prevê-se passar de 267 árvores no início para 305 no final [ver fonte]. Portanto, criticar o metrobus, porque sacrifica árvores (as quais, que eu saiba, não pertencem a espécie protegida, nem são de particular interesse histórico, que pudesse justificar a sua preservação), é simplesmente disparatado, porque se baseia num argumento falso — e, parecendo que não, para qualquer pessoa que se queira aventurar fora da sua bolha de verdades absolutas, basear a opinião em argumentos verdadeiros é importante.
Analisemos então agora o argumento da ciclovia. Os especialistas do IMT [visitar] dizem que: «as boas práticas reconhecem que, em meio urbano, se devem privilegiar soluções de partilha do espaço rodoviário entre os veículos motorizados e as bicicletas, em detrimento de soluções segregadas, como as pistas cicláveis» [ver fonte]; e ainda que: «a rede ciclável deve oferecer ligações directas e contínuas entre os principais pólos geradores/atractores de deslocações, como: equipamentos colectivos; interfaces de transportes; áreas habitacionais; áreas comerciais e de serviços e locais de lazer, entre outros.» [ver fonte] — coisa que a ciclovia em causa não faz, o que a torna pouco mais que inútil, do ponto de vista da mobilidade: existe ao longo dum parque com dez quilómetros de caminhos cicláveis, um dos quais corre paralelo à dita ciclovia a menos de cinquenta metros de distância, e não existe onde a alternativa é arriscar a vida pelo meio dos carros. Ou seja, em vez de termos três quilómetros duma ciclovia, temos quilómetro e meio de duas ciclovias paralelas. Se isto não é a epítome da redundância (e, por conseguinte, da inutilidade), então eu não sei o que é. Mas a questão da ciclovia vai para além disso: acrescentar ou retirar ciclovias, sem um plano, é inconsequente. O que é preciso, primeiro, é perceber como tornamos a cidade, como um todo, amiga dos peões, dos ciclistas e dos transportes públicos e menos amiga dos carros, que é o que ela é agora. Estar a discutir uma ciclovia individual sem olhar para esse plano geral é inútil. O IMT tem um guia, que compila em 30 páginas o que de mais relevante se foi aprendendo em toda a Europa, ao longo dos últimos cinquenta anos, sobre o que funciona e o que não funciona, no que toca a tornar as cidades mais propícias ao uso da bicicleta. Para qualquer pessoa que queira uma cidade com mais bicicletas e menos carros, é o manual de instruções a seguir [ver mais].
Mas o maior problema é assumirmos que tem de ser uma ou outra. As duas coisas — um metrobus e uma ciclovia — não são incompatíveis, nem sequer alternativas. Enquanto os defensores dum e doutro se digladiam por migalhas de espaço público, não estão a olhar para o verdadeiro abusador desse espaço, que é o automóvel.
Tudo isto nos traz então à suspensão das obras da segunda fase do metrobus [ver notícia]. A «paragem técnica» não é mais do que uma cedência política às vozes que se têm levantado contra o projecto, o que apenas vem demonstrar, mais uma vez, a permeabilidade das entidades técnicas a vontades políticas às quais deveriam ser menos sensíveis. Para a população, isto apenas descredibiliza ainda mais um projecto cujo crédito já está bastante periclitante. Pior ainda: as obras em curso, só com a abertura da frente de obra e a instalação dos estaleiros, já causam perturbações ambientais (ruído, poeira, abate de árvores, prejuízo do trânsito). Parar não elimina muito desse impacto, mas prolonga o período de perturbação, podendo causar efeitos como degradação do ambiente urbano e desconforto para quem vive ou trabalha perto.
Obras paradas implicam reorganizar cronogramas, redistribuir recursos, renegociar contratos. Há incerteza para todos os envolvidos, que pode redundar em conflitos legais (multas, compensações) ou burocráticos que complicam retomar o trabalho, já para não mencionar que o projecto depende de financiamento do P. R. R.. Se as obras não avançarem dentro de certos prazos ou critérios, corre-se o risco de perder esses fundos e financiar depois pode ser mais difícil ou sujeito a condições piores.
Parar as obras significa também elevar os custos: é provável que os contratos prevejam algum tipo de pagamento aos empreiteiros por pausas, além de que a inflação vai tornar os materiais mais caros. Quanto mais se adia, mais caro pode sair. Não que já não estejamos habituados a atrasos e derrapagens orçamentais, mas fazê-lo propositadamente é totalmente desnecessário.
Além destas perdas directas, cada dia de atraso pode representar perdas para as empresas, o comércio e os trabalhadores que usam os transportes colectivos e mesmo os transportes individuais. O custo do tempo perdido é real — em combustível, em horas de trabalho e em produtividade — e, porque tudo isto custa dinheiro, também monetário — e para toda a cidade.
Não deixa de ser um facto que o metrobus irá melhorar a mobilidade: vai ligar zonas com mais rapidez e reduzir os congestionamentos e a poluição. Parar as obras significa adiar todos esses benefícios, tanto para os futuros passageiros, como, na verdade, também para os automobilistas, os peões e as pessoas em geral. Pior: até estar em funcionamento, há mais perturbação para os carros e transportes menos eficientes do que havia antes das obras começarem.
Para quem depende do transporte colectivo, a qualidade permanece insuficiente. Quem mais sofre são frequentemente os mais dependentes do transporte colectivo: trabalhadores com horários fixos, estudantes, pessoas com mobilidade reduzida, etc. A demora ou interrupção prolongada afecta as condições de vida — custo de transporte, disponibilidade, tempo diário perdido.
Em suma, suspender as obras não resolve problema algum — apenas prolonga os incómodos, encarece o projecto e adia os benefícios de uma mobilidade mais moderna, justa e sustentável para todos. Mas os senhores que gostam de passear na ciclovia ao Domingo devem estar sumamente felizes!