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Bom Filho

Bom Filho

02 de Abril, 2021

Discrepâncias entre casos activos de doença e contactos em quarentena

33.º episódio de «Perspectivas em saúde», na Sinal TV [visitar]

Veja este artigo em vídeo:

Ou leia o texto:

Olá!

Quero começar hoje por agradecer todas as perguntas e sugestõede temas que nos têm chegado. Com talvez uma ou duas excepções, todos os episódios, até agora, responderam a uma questão colocada pelos espectadores — ou mais do que uma, quando há várias que versam o mesmo tema e faz sentido enquadrá-las no mesmo episódio.

Mas, com toda a honestidade, tenho de dizer que estava a ver que nunca mais ninguém colocava a questão que vou abordar hoje! Os números divulgados no boletim epidemiológico do Alto Tâmega e Barroso mostram um facto curioso: há muito poucas pessoas em quarentena, comparativamente ao número de doentes com Covid-19 em isolamento. Porquê?

Antes de prosseguir, permitam-me definir dois conceitos: isolamento é o período de dez dias, no mínimo, que uma pessoa com Covid-19 tem de permanecer em casa, para evitar que contagie outras pessoas; quarentena, ou isolamento profilático, é o período de catorze dias, que uma pessoa que esteve em contacto com um doente tem de ficar em casa, para ver se desenvolve sintomas e assim evitar que contagie mais alguém.

Então, por que há, segundo o boletim epidemiológico da Unidade de Saúde Pública do Alto Tâmega e Barroso, tão poucas pessoas em quarentena, relativamente ao número de doentes em isolamento? Bem, há várias razões para isso.

A primeira é simples: a angústia dos números que não batem certo [visitar]. O número de doentes em isolamento — ou seja, as pessoas que foram diagnosticadas e ainda não foram consideradas curadas, o que também se designa por fase activa de doença — o número de pessoas em fase activa de doença está levemente sobrestimado, visto que a contagem dos novos casos é relativamente fácil e rápida, mas a contagem das altas demora, às vezes, alguns dias. Ou seja, há um certo número de pessoas que já não estão doentes, mas ainda aparecem no mapa dos doentes, em vez de aparecer no mapa dos curados. É um número pequeno, mas é uma das razões que concorre para a situação que estamos a analisar. Isto prende-se com questõede registo clínico, que nem sempre é feito da forma mais adequada e leva a estes problemas no levantamento e na análise dos dados.

Por outro lado, o número de pessoas em quarentena está subestimado. Muitas vezes, a vontade de produzir informação esbarra em dificuldades técnicas e este é um desses casos: as pessoas em quarentena por relação com casos ocorridos em escolas não são contabilizadas, meramente porque, até agora, ainda não foi possível conciliar a base de dados das escolas com o sistema informático que produz o boletim epidemiológico. Estamos a trabalhar para resolver o problema, mas, até lá, a realidade é esta, mesmo que não seja como devia ser.

Mas, para além destas duas limitações técnicas, há mais dois ou três motivos por trás dos números, que vale a pena discutir.

O primeiro é que uma parte não despicienda dos casos de Covid-19 identificados têm acontecido em lares de idosos, tal como tem sido noticiado pela comunicação social. Os lares de idosos são uma realidade particular, visto que uma grande parte dos seus residentes já vive uma certa forma de isolamento no seu dia-a-dia. Por esse motivo, os residentes de lares de idosos que ficam em quarentena quando ocorre um surto de Covid-19 no lar não são contabilizados no boletim epidemiológico.

O segundo motivo é que a Unidade de Saúde Pública do Alto Tâmega e Barroso tem sido muito mais liberal na realização de testes para Covid-19 do que outras autoridades de saúde no resto do País. Temos ido bastante além das normas da Direcção-Geral da Saúde, no que toca à realização de testes, o que é o mesmo que dizer que temos testado todas as pessoas, por mais ténue que seja a justificação para tal, enquanto uma leitura mais restritiva das normas da DGS poderia deixar muitas dessas pessoas por testar. Não quer dizer que nós estejamos certos e os outros errados, ou vice-versa, quer simplesmente dizer que as normas da DGS deixam margem de manobra para cada autoridade de saúde decidir livremente — e nós, por cá, temos decidido a favor de testar. Mas isto tem duas implicações: aumenta o número de doentes e diminui o número de contactos em quarentena.

Vejamos como. Ao testar, muitas dessas pessoas têm um resultado positivo eem vez de fazerem catorze dias de quarentena, fazem apenas sete e mais dede isolamento, porque estão, afinal, doentes. Traduzindo isto por números, de forma muito simplificada, se houver cinco casos novos por dia e cada caso recuperar ao fim de dez dias, no primeiro dia há cinco casos, no segundo dez, no terceiro quinze e assim sucessivamente até que, ao nono dia, passa a haver 45 casos e, daí para a frente, adoecem cinco, recuperam cinco e ficamos sempre nos 45 doentes em fase activa.

Se cada novo caso gerar dois contactos em quarentena, há dez pessoas em quarentena no primeiro dia, vinte no segundo, trinta no terceiro, cem no décimo dia, mas aí é que a coisa complica: porque as quarentenas só terminam ao fim de catorze dias, o número de pessoas em quarentena só estabiliza, nas 130, a partir do 13.º dia.

Portanto, a partir do 13.º dia, teremos uma média de cerca de 3 contactos em quarentena, por cada pessoa em fase activa de doença.

Porémencurtemos a quarentena para sete dias, porque testámos essas pessoas ao fim desse tempo e vieram positivas, e coloquemo-las como doentes adicionais. Se metade das pessoas que testámos tiverem um resultado positivo, o número de novos casos só continua a ser de cinco por dia nos primeiros seis dias. Ao sétimo dia, temos dez novos casos: os mesmos cinco que estávamos a ter e mais cinco dos contactos que estavam em quarentena por causa das cinco pessoas que adoeceram no primeiro dia e entretanto foram testados. E assim sucessivamente: em vez de estabilizarmos nos 45 doentes em fase activa a partir do nono dia, continuamos a crescer até ao 16.º dia e só aí estabilizamos, já não nos 45, mas nos 95 doentes em fase activa.

Por outro lado, o número de pessoas em quarentena já não atinge as 130, mas fica-se pelas 95, porque muitas das que estariam em quarentena, afinal, já contam como doentes. Et voilà, temos, já não 3 contactos em quarentena, por cada pessoa em fase activa de doença, mas uma razão de 1:1 — e parece que não andamos a fazer nada!

É preciso não esquecer que todas as pessoas que estavam em quarentena eentretanto, tiveram um teste positivo, não vão gerar mais pessoas em quarentena, pois o objectivo da quarentena é mesmo esse: garantir que, se alguém adoecer por ter estado em contacto com outra pessoa com Covid-19 que tenha sido previamente identificada, já não contagie mais ninguém.

Sobra a razão mais preocupante — e por isso a deixei para o fim, para perdurar na memória, em vez de se perder no meio do resto da conversa: há um atraso na identificação das pessoas doentes e, quando vamos identificar os contactos para pôr em quarentena, já estão todos também doentes. Basicamente, aquilo a que temos vindo a perceber, no âmbito dos inquéritos epidemiológicos, é que muitas pessoas com Covid-19 não têm valorizado os sintomas iniciais e são capazes de andar dois, três, quatro dias com uma tossezinha, umas dores de cabeça, sem sentir cheiro, até irem ao médico. Durante esses quatro dias, contactam com os familiares mais próximos e contagiam-nos. Entretanto, ao quarto ou quinto dia, lá vão ao médico, fazem o teste, o resultado chega no dia seguinte, é positivo e os familiares ligam todos para o SNS24, com receio, e vão fazer também o teste. Quando, um dia ou dois depois, nós telefonamos à pessoa doente, para lhe fazer o inquérito epidemiológico, descobrimos que o período de contagiosidade já começou há uma semana, que grande parte dos contactos de alto risco já fizeram teste e já tiveram um resultado positivo, já se auto-isolaram (o que é bom) e já não temos mais pessoas para pôr em quarentena, porque já está tudo doente e isolado.

E é por isso que edeixo o apelo a que todos estejam muito atentos aos sintomas possíveis de Covid-19: se tiver tosse, febre, perda dos sentidos do cheiro ou do gosto, dores de cabeça muito fortes, dificuldade ou dor a respirar, não facilite, nem deixe andar, a ver se passa: ligue imediatamente para o SNS24 — 808 24 24 24.

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