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Bom Filho

Bom Filho

25 de Março, 2021

Nem toda a gente morre de Covid-19

Republicação do 25.º episódio de «Perspectivas em saúde», na Sinal TV [visitar]

Veja este artigo em vídeo:

Ou leia o texto:

Olá!

A Covid-19 pode matar. Mas pode matar de várias formas. Pode matar directamente. Em Portugal, 1,5% das pessoas que desenvolvem Covid-19 acabaram por falecer. Por comparação, na Alemanha, a letalidade é, presentemente, também de 1,5%; nos Estados Unidos, de 2,2%; em Espanha, de 2,7%; no Brasil, de 2,8%; na Suécia, de 3,2%; e, no mundo, globalmente, de 2,4% [ver fonte]. Até nem estamos mal, mas temos de continuar a tomar as precauções recomendadas pela DGS, temos de continuar a isolar os doentes e os seus contactos e temos de continuar a testar todos os casos suspeitos, para continuarmos a sobreviver…

Mas a Covid-19 também pode matar indirectamente. A pandemia criou um conjunto de situações nefastas para a saúde. Por um lado, o adiamento de consultas e cirurgias nos hospitais e nos centros de saúde pode levar a que pessoas com cancro e doenças crónicas não consigam aceder aos cuidados de que precisam, ou adiem tratamentos ou consultas de vigilância, e isso pode fazer com que situações que poderiam ser detectadas atempadamente e corrigidas possam acabar a complicar-se. Por outro lado, há notícias de aumentos de casos de violência doméstica associados ao confinamento, bem como situações de saúde mental que podem ser agravadas ou desencadeadas pelo confinamento. E depois, há que não esquecer a enorme pressão a que estão sujeitos os profissionais dos serviços de saúde, incluindo as autoridades de saúde, com turnos de trabalho loucos, horas extraordinárias inimagináveis e uma população que, volta e meia, os culpa por não conseguirem resolver todos os problemas — 80% dos quais, diga-se em abono da verdade, não seriam problemas, se a malta usasse máscara e não andasse a almoçar todos os Domingos com a família inteira. Mas isto já sou eu a descompensar e, portanto, vamos voltar ao assunto que temos hoje em apreço, antes que me despeçam por dizer umas verdades inconvenientes…

Dizia eu que a Covid-19 pode matar indirectamente. Pode ser porque os serviços de saúde não conseguem dar resposta, mas também pode ser porque as pessoas deixam de os procurar. Preferem não sair de casa, têm medo de ir ao médico, ou à urgência do hospital, e vir de lá com Covid-19. Sabemos que a procura dos serviços de urgência se reduziu, bem como o número de consultas nos cuidados de saúde primários.

A juntar a tudo isto, há a incerteza. A codificação da causa de morte não é uma ciência exacta. Por um lado, pode haver pessoas que morrem por Covid-19, que nunca são diagnosticadas. Por outro lado, se uma pessoa tem uma doença que pode ser fatal e, entretanto, desenvolve Covid-19 e morre, essa morte foi causada pela Covid-19, ou pela outra doença? Esta destrinça não é fácil de fazer e é um desafio adicional à contagem da mortalidade devida à Covid-19.

Mas também há boas notícias. As medidas de prevenção da Covid-19 são, basicamente, as mesmas que permitem prevenir a gripe. Para além disso, a procura da vacina atingiu níveis nunca antes vistos, provavelmente potenciada pelo receio da Covid-19. Tudo isto permite-nos estar confiantes de que, este ano, não haverá as tradicionais tristes notícias dos serviços de urgência atulhados de pessoas engripadas em Dezembro e Janeiro. Por outro lado, o confinamento reduziu o tráfego automóvel e, consequentemente, a mortalidade nas estradas e a poluição nas cidades (favorecendo quem tem doenças respiratórias, que são agravadas pela poluição). Mesmo os homicídios devem ter diminuído, por haver menos gente na rua.

Mas todos estes efeitos indirectos levarão, provavelmente, anos a identificar e a quantificar; e a verdade é que, provavelmente, nunca serão quantificados na totalidade, pois há demasiados factores em jogo, para se conseguir isolar o efeito de cada um deles. A questão fundamental é: não se morre só de Covid-19, mas pode-se morrer, sem Covid-19, por causa da Covid-19.

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