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Bom Filho

Bom Filho

13 de Março, 2021

O desconfinamento, os eventos de massas e a Covid-19

Republicação do 13.º episódio de «Perspectivas em saúde», na Sinal TV [visitar]

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Ou leia o texto:

Olá!

A chegada da pandemia de Covid-19 a Portugal, em Março, trouxe consigo a necessidade de restringir ao máximo as deslocações de pessoas e o contacto entre si, de modo a retardar a progressão da propagação do coronavírus. Foi declarado o estado de emergência e foi decretado o confinamento, excepto de quem precisasse mesmo de sair à rua.

Com isso, o SNS ganhou tempo para aumentar a sua capacidade de resposta e nunca teve uma procura global superior à sua disponibilidade de pessoal e equipamentos. Este era o objectivo fundamental, pois permitiria reduzir o impacto da pandemia e salvar vidas. Resultou: Portugal tem uma das mais baixas taxas de letalidade.

Mas o confinamento trouxe consigo outros problemas, nomeadamente a crise económica: se as pessoas não saem de casa, não consomem; se não consomem, as empresas não vendem; se as empresas não vendem, abrem falência; e os trabalhadores ficam desempregados e sem dinheiro. Mas também uma segunda crise de saúde: se as pessoas não saem de casa, não vão ao médico; se não vão ao médico, não recebem o tratamento adequado, se forem doentes crónicos, e não são diagnosticados a tempo, se tiverem outras doenças, incluindo cancro; se não são tratadas adequadamente, ou diagnosticadas a tempo, isso aumenta a probabilidade de terem complicações mais graves e de morrerem. E ainda uma crise de saúde mental e de bem-estar social: ficar em casa e estar isolado é contra a natureza humana e tem consequências a nível do equilíbrio emocional de cada um.

Daí que seja importante retomar a actividade e a vida normal — ou tão normal quanto possível, tendo em conta que o coronavírus não se foi embora. Não se foi embora, mas, desde que o consigamos manter sob controlo (desde que não se propague desenfreadamente e desde que não atinja as pessoas mais vulneráveis), podemos desconfinar. É o que temos vindo a fazer, lentamente, desde o fim do estado de emergência.

O desconfinamento inclui a retoma de actividades normais, do dia-a-dia, mas também a retoma de actividades excepcionais, como sejam os eventos de massas. Eventos de massas são situações onde há uma concentração de pessoas, num local específico, com um objectivo específico, num período de tempo determinado, com o potencial de colocar pressão sobre os recursos de planeamento e resposta da região, independentemente do número de pessoas envolvidas no evento [ver fonte]. Portanto, os eventos de massas podem ser feiras, festas e romarias, concertos e festivais, eventos desportivos ou políticos e todo o tipo de certames e eventos culturais.

Os eventos de massas não estão proibidos, mas requerem atenção especial, a fim de prevenir eventuais problemas relacionados com a concentração anormal de pessoas, com a mobilidade dessas pessoas (pois, muitas vezes, há pessoas que vêm de longe, só para participar no evento, e depois voltam à origem) e com as condições mais precárias em que muitos deles decorrem (em instalações temporárias, montadas apenas para o efeito do evento e desmontadas logo de seguida). Por esse motivo, perante um evento de massas, as autoridades de saúde trabalham em conjunto com a organização do evento, a protecção civil, os municípios, as autoridades policiais, a fim de garantir que tudo corre pelo melhor.

Este trabalho passa por quatro fases.

A primeira fase consiste em identificar e avaliar os riscos. A avaliação de risco consiste em responder à pergunta: o que pode correr mal e qual é a probabilidade disso acontecer? Isso permite-nos estratificar o risco por níveis e estabelecer prioridades na gestão desse risco.

A segunda fase consiste em identificar e planear as medidas tendentes a minimizar o risco. No fundo, trata-se de perceber o que podemos fazer para evitar que tudo o que possa correr mal corra, de facto, mal.

A terceira fase é a vigilância e monitorização. As autoridades de saúde visitam o evento, observam como as medidas preventivas definidas previamente estão a ser aplicadas e cumpridas, identificam oportunidades de melhoria, fazem recomendações e, se for caso disso, determinam a suspensão do evento. Além disso, é montado um sistema de identificação precoce de situações problemáticas, como seja um participante adoecer durante o evento e poder ser um foco de contágio para outros participantes.

Finalmente, a quarta fase é a fase de resposta: quando, apesar das medidas preventivas e de segurança postas em prática, ocorre um caso de Covid-19, ou outra situação de doença, é preciso ter muito claro o que se faz, para lidar com o problema.

É este trabalho que tem sido feito nos municípios do Alto Tâmega, em proximidade com todos os parceiros. Aproveito para enviar aqui uma nota de agradecimento aos municípios e também às autoridades policiais, que têm sido incansáveis e extremamente colaborantes na gestão de todas as situações de risco que têm sido colocadas.

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