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Bom Filho

Bom Filho

06 de Agosto, 2023

Os médicos ganham muito dinheiro?

Dias antes da pandemia começar, andava eu indignado, por ter ido a um jantar qualquer e um dos convivas ter atirado aquela lapidar frase de que os médicos ganham muito dinheiro. Nada de novo: volta e meia, alguém diz ou escreve exactamente isso, normalmente em alturas de greve ou contestação das políticas do Ministério da Saúde.

Na altura, publiquei uma série de contas de merceeiro na extinta «Rua da Constituição» [ver mais], através das quais, esperava eu, demonstrava que as outras contas de merceeiro que as pessoas vulgares fazem para justificar a afirmação de que os médicos ganham muito dinheiro estão mal feitas.

Agora, parece que o assunto voltou à baila [ver onde], desta vez como colateral da luta dos professores, do veto do presidente [ver notícia] e da recuperação do tempo perdido (coisa quase-proustiana [perceber a referência], que só professores — gente culta! — seriam capazes de fazer). Pelo visto, um amigo lembrava-se do artigo original e perguntou por ele (obrigado, Pedro) no inevitável grupo do WhatsApp que substituiu o café como ponto de encontro e conversa. Em resposta ao Pedro, republico-o aqui, (pouco) revisto e actualizado.

Curiosamente, em Portugal, falar de dinheiro é quase pecado. Perguntar a alguém quanto ganha é considerado indelicado. No entanto, toda a gente sabe quanto ganha um médico: «muito dinheiro»; e ninguém tem pejo em falar do assunto. Devemos ser uma classe à parte…

Pior: uma parte não despicienda dos valores dos salários são de conhecimento público, visto que as tabelas salariais da função pública são, efectivamente, públicas. Sendo eu funcionário público, o valor do meu salário é o tabelado para a minha categoria profissional, sendo por isso do conhecimento público (basta pesquisar na internet), assim como os salários de todos os médicos que tabalham para o SNS. No entanto, pouca gente consulta as tabelas salariais antes de afirmar que os médicos ganham muito dinheiro.

Então, dias antes da pandemia começar, conheci o caso duma pessoa que ganhava, nessa altura, o salário mínimo vigente à data — €635. Entretanto, o salário mínimo já subiu e eu não sei se a dita pessoa foi promovida nestes últimos tempos, pelo que tomemos para as contas que se seguem o salário da altura.

Na sua visão, alguém que ganhava quase três vezes mais do que ela, como era o meu caso, ganha muito dinheiro. Mas é mesmo assim? Não há diferenças, entre nós, que justifiquem essa diferença salarial? Vejamos.

Comecemos pelas qualificações.

Essa pessoa é da minha idade e tem o ensino obrigatório — que, no meu tempo, era o nono ano. Portanto, estudou nove anos.

Eu estudei mais três anos no secundário e seis na faculdade — dezoito anos, no total.

A dita pessoa fez uma formação de seis meses, antes de começar a trabalhar, recebendo uma pequena comparticipação do Instituto do Emprego e Formação Profissional.

Eu fiz cinco anos de internato médico, até me tornar especialista e poder ingressar na carreira médica do Serviço Nacional de Saúde.

Resumindo: a pessoa em causa tem nove anos e meio de formação; eu tenho 23. Se aplicarmos uma regra de três simples, só a diferença em termos de formação justificaria que eu ganhasse €1537 por mês.

Mas, além da duração da formação, há ainda a intensidade da formação. A pessoa de quem tenho falado acabou o nono ano com média de 3; eu acabei com média de 5; e acabei o secundário com média de 20. Esta diferença de rendimento escolar resulta, em grande parte, duma diferença no nível de esforço académico, o qual deve também ser recompensado.

Mantendo a regras de três simples e multiplicando este factor de ponderação qualitativo pela duração da formação, o salário que eu deveria auferir é €2562.

Mas não basta falar das qualificações; há que falar também das diferentes características dos empregos de cada um.

Falemos, concretamente, do diferente nível de complexidade e responsabilidade das duas profissões que nós desempenhamos. Mais complexidade e responsabilidade devem reflectir-se em mais salário — digo eu. Este é um ponto mais subjectivo, mas creio que não estou a exagerar, se disser que o nível de complexidade e responsabilidade dum acto médico é três ou quatro vezes maior do que o dum registo de caixa num supermercado (que é a profissão da pessoa de quem tenho estado a falar). Aplicando este factor de ponderação às contas que já tinha feito, resulta que um médico deveria ganhar mais de €7000.

Nem no topo da carreira isso acontece; e já nem vou discutir se esta diferença deveria ser antes ou depois de impostos! Também nem vou entrar pelo campo do salário como função da oferta e da procura, porque já sei que os detractores irão responder que a solução é abrir mais vagas nas faculdades de medicina [ver notícia].

Mas vou concluir, recomendando que pensem duas vezes antes de falar, todas as pessoas que acusam os médicos de ganhar muito dinheiro. Mais não seja, porque não querem ser tratados por alguém que está mais preocupado em saber como vai chegar ao fim do mês do que como o doente vai chegar ao fim do tratamento…

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