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Bom Filho

Bom Filho

04 de Maio, 2021

Vale a pena desconfinar, se vem aí mais uma onda de casos?

48.º episódio de «Perspectivas em saúde», na Sinal TV [visitar]

Veja este artigo em vídeo:

Ou leia o texto:

Olá!

Errar é humano. Toda a gente erra; e as autoridades de saúde e o Governo não são excepção. Houve erros, no primeiro desconfinamento, tal como houve erros em variados outros domínios do combate à pandemia de Covid-19 em Portugal e no resto do mundo.

Nem sequer devia estar a usar o pretérito perfeito, porque continua a haver erros no presente e, certamente, haverá erros no futuro.

Mas, se errar é um dos defeitos humanos, um dos méritos da humanidade e dos seres humanos, individualmente, é aprender com os erros.

Do primeiro desconfinamento para este, aprendeu-se com os erros que foram cometidos e tentou-se não voltar a cometê-los.

Duas das diferenças, para melhor, são o cariz mais localizado deste desconfinamento e a definição, a priori, de critérios de recuo.

A primeira diferença tem que ver com a aceitação de que o País não é um todo homogéneo, do ponto de vista demográfico, social, cultural e económico, e que isso tem impacto na forma como a transmissão da Covid-19 se dá em diferentes regiões, que dinâmicas de risco se estabelecem (por exemplo, num sítio podem ser os transportes públicos sobrelotados, noutro podem ser as escolas que não tenham condições para garantir o distanciamento dos alunos e noutro ainda podem ser as viagens de férias de turistas estrangeiros ou de emigrantes de visita à família) e, por conseguinte, nem todos os concelhos têm o mesmo risco ao mesmo tempo. Isso leva a uma gestão muito mais fina, em que, ao contrário do que aconteceu no primeiro desconfinamento, em que o país andou, com excepção de Lisboa, todo ao mesmo ritmo, agora, um concelho pode estar a desconfinar, enquanto outro pode estar a confinar ao mesmo tempo. A principal vantagem disto é que a economia nacional não é sacrificada como um todo, para resolver problemas regionais ou locais.

A segunda diferença tem que ver com sabermos à partida o que nos espera e podermos gerir a nossa vida em função disso. Se o Rt estiver acima de 1, ou se a incidência estiver acima de 120 casos por 100.000 habitantes, ou ambas as coisas ao mesmo tempo, já sabemos o que vem aí: ou paramos de desconfinar, ou até podemos dar um passo atrás no desconfinamento. Podemos debater se estes são ou não os melhores critérios, mas mesmo um mau critério seria sempre melhor do que nenhum critério — porque a ausência de critério gera incerteza e insegurança.

Estas duas diferenças são fundamentais, porque o confinamento é uma agressão à comunidade. O confinamento tem impacto na saúde física e mental [ver mais], gera desemprego, estraga o futuro das crianças em idade escolar [ver mais] e um ror de etc. Portanto, não é de ânimo leve que confinamos; só o fazemos quando não há mais remédio e na mais restrita área geográfica onde seja estritamente necessário. Às vezes, basta confinar um concelho. Possivelmente, nalgumas situações, em zonas de baixa densidade populacional, bastaria até confinar uma única freguesia.

Uma nova onda de casos, semelhante ao que aconteceu após o Natal, não é impossível. Mas temos de tentar evitá-la, sem, ao mesmo tempo, destruir tudo o resto que nos é caro. Este desconfinamento a conta-gotas e sempre em risco de recuar é a melhor forma que encontrámos, até ao momento, de conciliar a necessidade de proteger a saúde das pessoas com a necessidade de lhes garantir o sustento, a educação e um mínimo de diversão — porque não basta ser saudável, também é importante ser feliz.

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